OS GATOS DEIXAM PEGADAS NO NOSSO CORAÇÃO

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A história de uma Fera


A Fera é uma das sobreviventes das muitas ninhadas da Margarida, gata vadia e sabida, qualidades que lhe têm permitido sobreviver com sensatez e elegância às grandes dificuldades que um felino desta natureza enfrenta. A Fera é igualzinha à mãe, exceptuando o círculo branco desenhado de coxa a coxa desta e as manchinhas amarelas das bochechas daquela.

Fera e o filhote Pretinho

A Ferinha apareceu-nos um dia perto da nossa porta pedindo alimento para si e para o seu lindo filhote, que era todo negrinho. Ela ganhou este nome porque à súplica pela comida juntava uma atitude aparentemente agressiva – mistura de bufadelas com rosnadelas – que não passava de ameaças para garantir a sua integridade e a do filhote. Dia após dia, a Ferinha marcava pontualmente presença à hora da refeição. Deixando o filhote uns metros atrás e, aproximando-se de nós, cumpria o ritual da praxe: eu colocava a comida uns metros longe da porta e ela esperava que eu me afastasse para chamar o filhote e juntos consumirem a refeição, que era devorada com grande apetite.
Durante dois dias, nem a Fera nem o filho apareceram, tinha havido um enorme temporal. Não sei onde se abrigaram, só sei que a Fera reapareceu sozinha e com um olho ensanguentado. Aproximei-me para a ajudar e o resultado foi frustrante: a Fera desapareceu durante oito dias ao fim dos quais voltou, muito debilitada, pedir ajuda, acompanhada pelo pai, o Cabeçudo, e pela irmã, a Lindinha. Nessa noite ficou a dormir na churrasqueira, num cestinho, juntamente com o pai que a apoiou no sofrimento.

Cabeçudo

Lindinha

No dia seguinte levámo-la a uma clínica veterinária e ela mal reagiu quando a colocámos no cestinho de transporte. Teve de ficar internada, pois encontrava-se muito desidratada e não estava em condições de sofrer duas cirurgias, a ablação do olho e a esterilização, que decidimos fazer aproveitando a circunstância. Visitámo-la umas duas vezes e ela parecia reconhecer-nos, protestando por estar presa. Segundo o pessoal da clínica, portou-se muito bem, deram-lhe a classificação de mansinha, inclusive os veterinários, deixando-se tratar com facilidade. O único "senão" era "umas bufadelas de protesto quando a retiravam da jaula", o que é compreensível!
Cabeçudo, Margarida e a filha Ferinha A Fera está bem, movimenta-se livremente no nosso jardim, que é grande, escolhe onde se deve recolher e aparece para comer quando bem entende, respeitando, no entanto, um horário regular. O resultado da agressão que a Fera sofreu de um ser desumano levou-a, apesar do carinho que lhe tentamos dispensar, a não confiar seja em quem for, afastando-se logo que nos aproximamos e só aceitando o alimento quando lhe damos espaço suficiente para se pôr a salvo. O comportamento da Ferinha melhora na presença do Cabeçudo e da Margarida, que a apoiam e a protegem, parecendo compreender a deficiência da filha.
Espectacular é observar como a Ferinha imita a mãe tal e qual um gato bebé: a Margarida rebola-se, a Fera rebola-se; a Margarida mostra a barriga, a Fera faz o mesmo, a Margarida entra na churrasqueira, a Ferinha segue-a...  Linda de se ver, esta dupla circense! Temos expectativas quanto à recuperação psicológica da Fera, que esperamos capte da sua mãe a sabedoria para poder discernir em quem deve e em quem não deve confiar, tudo isto para a sua própria sobrevivência. A Ferinha merece, após tão grande trauma e porque é um animal lindo em todos os aspectos.

Aurora Pereira